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02/05/2014 - Redução de vagas dificulta missão de agências de recolocação profissional

Data de publicação .

Estado de Minas
Sexta-feira, 02 de maio de 2014

TRABALHO »

Profissionais cujo negócio é casar vagas e candidatos já percebem redução na oferta de novas vagas e predominância de recolocação

Francelle Marzano / Marta Vieira

   

Corina da Conceição Pimenta Mendes atende o técnico de informática Neander de Sousa Costa, no Sine

 


As agências de emprego já começam a se adaptar à redução da oferta de vagas, que torna mais desafiador neste ano o casamento já nada fácil das exigências dos cargos com o perfil profissional dos candidatos. Para que os trabalhadores cheguem a agarrar a oportunidade de trabalho, há um pelotão formado por atendentes, psicológos e consultores, que trabalham recebendo e analisando currículos, fazendo entrevistas e negociando com as próprias empresas que vão contratar mão de obra, numa corrida contra o tempo para que esses candidatos tenham a chance de chegar ao fim do processo de seleção, muitas vezes conduzido pelas agências até a decisão do novo patrão.

O cenário incerto da economia em 2014 pressiona toda essa cadeia. Na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a taxa de desemprego voltou a subir em março, atingindo 8,3% da População Economicamente Ativa (PEA), o conjunto das pessoas empregadas e à procura de trabalho, ante 7,7% em fevereiro, de acordo com a Pesquisa de Emprego e Desemprego divulgada ontem pela Fundação João Pinheiro, de BH, e o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Foi a maior taxa registrada desde março de 2011, quando o nível de desocupação havia alcançado 8,5%, portanto dos últimos três anos.

Houve cortes de postos de trabalho na indústria, no comércio e nas empresas prestadoras de serviços, totalizando 20 mil ocupações a menos na comparação com fevereiro. Só a construção civil ficou a salvo da redução do emprego. Pequenas atitudes inadequadas ou a falta de orientação na hora de disputar a vaga podem ser fatais para quem precisa trabalhar (veja o quadro). Para mostrar como toda essa engrenagem, da captação de uma vaga à colocação dos candidatos, a reportagem do Estado de Minas acompanhou a rotina de duas das maiores agências de emprego em Minas, o posto da Praça Sete da rede Sistema Nacional de Emprego e a unidade de BH do grupo Selpe.

Transparência na hora de se apresentar e mostrar à empresas as habilidades pessoais e profissionais é palavra-chave para os consultores. “É fundamental, independentemente do nível de formação do candidato”, observa Cristiane Muller, coordenadora de recrutamento e seleção da Selpe, especializada na contratação de profissionais de nível médio a funções diretivas. Errar no processo seletivo significa perda de tempo para empresas e candidatos e de dinheiro, mas erros são comuns, dos dois lados.

Em Belo Horizonte, uma das agências mais procuradas é o posto do Sine na Praça Sete, no Centro. Por mês, passam por lá cerca de 9 mil pessoas em busca de vagas. Entre janeiro e março deste ano, das mais de 6 mil vagas disponíveis na rede da capital e Região Metropolitana, só 1.069 candidatos conseguiram ser colocados no mercado. Diariamente, os atendentes escutam lamentos, agradecimentos e passam por situações inusitadas. Num caso recente, o candidato preterido atirou um monitor de computador na consultora que o recebeu.

 

 

GINCANA DIÁRIA A atendente Corina da Conceição Pimenta Mendes conta que todo dia é como uma gincana. “Nós queremos ajudar, encontrando uma vaga que esteja dentro do perfil que o candidato procura, mas nem sempre é possível. Algumas vezes, ele nos culpa pelo insucesso”, comenta. Corina tenta conversar com os trabalhadores, renovando as esperanças na busca por emprego, afinal todos os dias entram novas vagas no sistema e os orienta a voltar. É o caso do técnico em informática Neander de Sousa Costa, de 20 anos, que está fora do mercado desde 2011.

Neander estava no Sine à procura de uma vaga na última terça-feira, renovou seu cadastro, atualizou os dados com a expectativa do surgimento de uma oportunidade em breve. “Posso não achar hoje, mas é como ela (Corina) disse. Amanhã pode entrar uma oportunidade que esteja dentro do meu perfil”, diz. Para Corina, a sensação de dever cumprido bate quando uma pessoa retorna ao posto depois de conquistar a vaga. “Conseguimos encaminhar um haitiano que não falava português e ele conseguiu o emprego. Depois voltou, acompanhado de um brasileiro, colega na empresa, que fala francês. Vieram agradecer”, afirma.


Empresas como o grupo Selpe se especializou na prestação do trabalho de consultoria completa à empresas, assumindo todo o trabalho de seleção e até treinamento dos profissionais, com a participação ou não dos departamentos de Recursos Humanos do cliente. “Quanto mais especializada se torna a vaga, maior a necessidade da consultoria, inclusive na definição dos salários e dos benefícios oferecidos”, afirma o diretor da Selpe, Hegel Botinha. Ele observa que, para o preenchimento de cargos executivos, a identificação do profissional com a filosofia da empresa e dos seus produtos é decisiva.

Transparência é a chave


Depois de passar por uma seleção apertada, chegou o dia da entrevista decisiva com o empregador, mas o candidato teve de levar a mulher, que passou mal, ao atendimento de urgência. Não houve tempo de voltar em casa e trocar de roupa. Abalado por mais uma preocupação, ele não avisou do estresse sofrido e foi mal no teste, sendo preterido. Situações como essa poderiam ser contornadas se o candidato fosse mais transparente com o entrevistador, avalia Hegel Botinha, do grupo Selpe. “É o que será mais pedido dos candidatos num mercado que dá sinais de compasso de espera.”

“As empresas têm procurado fazer mais reposições de vagas e dão continuidade a projetos que estavam previstos”, diz o diretor da Selpe, que tem unidades em BH, Contagem, Conselheiro Lafaiete, Uberlândia e Recife, além de fazer contratações para empresas estrangeiras. A escassez de mão obra qualificada em algumas áreas também complica os processos seletivos.


Para o professor de economia e demografia da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG, Mário Rodarte, a oferta de vagas com carteira assinada ainda deve se manter ativa nos próximos meses. Rodarte acredita que muitas vezes o descasamento entre candidatos e o perfil profissional que as empresas demandam ocorre por falta de informações sobre as vagas existentes. “Boa parte das oportunidades são ocupadas por um network. Às vezes um familiar que trabalha na empresa fica sabendo e indica”, diz.


PRESSÃO A pressão sobre o mercado de trabalho da Grande BH levou mais 14 mil trabalhadores à condição de desempregados em março, formando um universo de 204 mil sem trabalho. O aumento do desemprego foi observado em cinco das seis capitais e entorno pesquisadas pelo Dieese, à exceção da Região Metropolitana de Salvador, onde a taxa de desocupação ficou estável, mas no pior nível, de 17,7%. O problema se agravou em Fortaleza (7,9%), Porto Alegre (6%), São Paulo (11,5%) e Recife (12,8%). A taxa média subiu de 10,3% para 11% e o número total de desempregados foi de 2,239 milhões de pessoas.


“Os números de março refletem um cenário mais desfavorável da economia, com as dificuldades enfrentadas na indústria, a redução do consumo e o aumento da inflação”, afirma Plínio de Campos Souza, coordenador da pesquisa pela Fundação João Pinheiro. A tendência, na avaliação dele, é de que a taxa de desemprego deste ano fique num nível superior ao da taxa de 6,9% medida em 2013 na Região Metropolitana de BH. Ainda é cedo para qualquer análise sobre o impacto das vagas abertas para atendimento da demanda maior durante os jogos da Copa do Mundo, no entanto, uma possibilidade é de que essa geração de empregos temporários combinada à redução do contingente de pessoas em busca de trabalho vá conter a taxa de desocupação. (MV e FM)