Estado de Minas | 25 de Junho | 2008

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Os índices de homicídios avançam nas grandes cidades do interior de Minas Gerais, enquanto a taxa de crimes violentos cai na Grande BH. Segundo o Anuário de Informações Criminais, divulgado ontem pela Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), com base nas ocorrências registradas pela Polícia Militar, quatro dos cinco municípios com mais de 250 mil moradores no interior do estado – Montes Claros (Norte de Minas), Juiz de Fora (Zona da Mata), Uberaba e Uberlândia (ambas no Triângulo Mineiro) – tiveram aumentos expressivos nas taxas de assassinato por 100 mil habitantes, que variam de 12% a 126%, entre 2005 e 2007. Já na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a taxa média de delitos violentos, computados homicídios, tentativas de assassinato, roubos e estupros, caiu mais de 40% de 2003 a 2007. No mesmo período, houve redução de 20,5% no quadro geral da criminalidade no estado, com a taxa de crimes violentos por 100 mil habitantes passando de 542 para 430 (veja gráficos).
Os dados revelados no estudo abrigam casos de superação, como o do diretor do Centro de Recuperação de Dependência Química, Julbenício Dias dos Santos, de 28 anos, que deixou para trás um passado de envolvimento com o crime, motivado pelas drogas, e hoje ajuda a recuperar outras pessoas. Mas também mostram claros desafios: de um lado, conter a expansão da violência para municípios do interior; de outro, fazer recuar os índices na metrópole, onde, apesar de estarem em queda, muitos indicadores foram contidos em patamares altos e demandam melhora expressiva. Taxa de ocorrências em quedaNa capital, crimes violentos tiveram redução de 41% entre 2003 e 2007, mas índices ainda são altos. Cerca de mil PMs reforçam, a partir de hoje, patrulhamento em MinasPaulo Henrique Lobato  Os chamados crimes violentos – homicídio, tentativa de assassinato, roubo e estupro – caíram significativamente em Belo Horizonte e na região metropolitana, mas os resultados ainda mostram espaço para quedas mais expressivas.
A taxa média desses registros, cujo cálculo leva em conta as ocorrências por grupo de 100 mil habitantes, recuou 41,02% na capital, entre 2003 e 2007, e fechou o último exercício com 93,18 infrações para cada conjunto de 100 mil moradores. A queda também foi significativa (-10,22%) no confronto entre o primeiro trimestre do ano anterior e o mesmo intervalo de 2008, quando o indicador ficou em 86,01 ocorrências. Já na Grande BH, houve diminuição de 40,98% em relação aos últimos cinco anos e de 8,64% na relação entre os acumulados de janeiro a março de 2007 e 2008. Os números, publicados ontem no Anuário de Informações Criminais de Minas Gerais, elaborado pela Fundação João Pinheiro (FJP), foram destacados pelo governador Aécio Neves (PSDB). Ele aproveitou as quedas para anunciar que mais de mil policiais militares que concluíram o curso de formação vão reforçar, a partir de hoje, a segurança pública na Grande BH (aproximadamente 900 homens e mulheres) e no interior (cerca de 100 PMs). O governador acrescentou que, ainda nesta quarta-feira, a Polícia Civil publicará edital para preenchimento de 700 vagas na corporação.

“Apenas para citar um dado extremamente atual, amanhã (hoje) está sendo publicado o edital da Polícia Civil para a contratação de mais cerca de 700 policiais e, por uma feliz coincidência, algo que vem se tornando uma regra no estado, amanhã (hoje), também, a Polícia Militar colocará nas ruas, depois de terem concluído o curso de preparação, mais de mil policiais”, enfatizou. O departamento de comunicação da Polícia Civil não informou se as vagas anunciadas ontem serão destinadas a delegados, agentes ou peritos.

Os crimes violentos medidos pela FJP são divididos em dois grupos: infrações contra a pessoa e contra o patrimônio. No primeiro conjunto, onde a ocorrência mais grave é a de homicídio, a taxa média anual em BH caiu 6,03% entre 2003 e 2007. Já na comparação entre 2006 e 2007, a quantidade de assassinatos na capital subiu de 998 mortes para 1.002. Porém, o secretário de Defesa Social, Maurício Campos Júnior, enfatizou que houve queda expressiva no confronto entre o primeiro trimestre desse ano e o mesmo período do exercício passado: -14,76% (de 268 assassintos para 231). Ele considera que uma das causas desse resultado é o trabalho preventivo das forças de segurança, como o mapeamento e o monitoramento de gangues.

“São cerca de 20 áreas em BH e no interior. Uma (região) pode ter mais de uma gangue”, reforçou. O estudo da FJP apurou também queda na taxa de homicídio da Grande BH: de 7,89% nos últimos cinco anos e de 8,82% em relação ao primeiro trimestre de 2008 comparado com o acumulado de janeiro a março de 2007. Nessa última abordagem trimestral, houve recuo nos três maiores municípios da região metropolitana depois de Belo Horizonte. Em Betim, a taxa passou de 4,45 para 3,14; em Contagem, caiu de 3,76 para 3,53; e em Ribeirão das Neves, o recuo foi de 3,91 para 3,76.

Da mesma forma que as ocorrências de homicídios, o segundo grupo dos crimes violentos, em que a maioria das ocorrências se refere ao roubo, também apresentou queda na capital e na região metropolitana. Em BH, a taxa recuou 42,26% entre 2003 e 2007 e 9,75% no confronto entre o acumulado janeiro/março de 2008 e igual intervalo do ano passado. Nessa última comparação, a taxa média passou de 86,69 registros por grupo de 100 mil moradores para 78,23. Já nos 34 municípios da região metropolitana, a regressão foi de 42,92% entre 2003 e 2007 e de 7,90% na comparação entre os primeiros trimestres deste ano e do ano passado. Outras informações sobre o estudo da FJP estão no site
www.fjp.mg.gov.br.  Adeus ao submundoLuciana Melo O passado de violência, tráfico de drogas e dependência química de Julbenício Dias dos Santos, de 28 anos, foi superado. Mas a sua história no mundo do crime ainda motiva muitas pessoas a mudar de rumo e optar pela regeneração. Pinha, como é conhecido, deixou de assaltar, vender e consumir drogas há seis anos, em uma trajetória representativa do quadro apresentado nas estatísticas de queda de violência. Diretor do Centro de Recuperação de Dependência Química (Credeq), ele é um exemplo de superação.

“Hoje, meu trabalho é fazer tudo ao contrário do que já fiz. É muito gratificante saber que minha experiência e o meu incentivo servem para ajudar outras pessoas. Deixei de ser uma ameaça para a sociedade para ser um apoio àqueles ainda perdidos no prazer da droga. Posso até sentir algum tipo de vontade, mas com a ajuda de Deus e dos outros sigo sem recaída”, conta Pinha.

A entrada para o universo das drogas foi a bebida alcóolica, nas festas com os amigos. A seqüência foi avassaladora, um caminho que poderia ser sem volta. “Para acompanhar os amigos comecei a beber na adolescência e fui avançando cada vez mais, com cigarro, maconha, cocaína e crack. No começo trabalhava, mas depois a droga ganhou o lugar do emprego e da família. Vendia objetos da minha casa e, não satisfeito, passei a traficar para sustentar o vício”, lembra.

Ao se envolver no narcotráfico, Julbenício Dias também participou de assaltos e chegou a ser preso várias vezes. Por ser menor de idade, as apreensões eram rápidas. Tempo suficiente para ele retornar ao vício e ao tráfico. O incentivo da família foi fundamental para a reabilitação. Ele foi internado por seis meses em uma fazenda, em Sabará, na Grande BH, e recebia visitas nos fins de semana. Continuou o tratamento em grupos de terapia e trabalha para incentivar outras pessoas a fazer escolhas de paz em suas vidas. Juiz de Fora registra quadro preocupante O retrato da violência em Minas, divulgado ontem pela Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), mostra um salto nos homicídios em Juiz de Fora, na Zona da Mata. A taxa de assassinatos por 100 mil moradores aumentou 126% em dois anos, pulando de 0,2 para 0,56. Em 2005, foram mortas 15 pessoas, ante 35 em 2007. Em Uberaba, no Triângulo, o aumento foi de 57% no período (de 1,5 para 2,4), o que significa, em termos absolutos, um salto de 33 para 54 no saldo de óbitos.
 É quase a mesma variação registrada, em apenas 12 meses, em Montes Claros, no Norte do estado. Entre 2006 e o ano passado, a taxa foi 55% maior e os óbitos passaram de 49 para 68. A tendência se repete, em menor escala, em Uberlândia, também no Triângulo, que teve aumento de 12% na taxa. Para o coordenador do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (Crisp) da UFMG, Cláudio Beato, os dados refletem um fenômeno vivido, a partir dos anos 1980, em centros maiores, como Belo Horizonte. Nas cidades-pólo, o tráfico começa a se organizar e se armar, o que aumenta o potencial ofensivo das gangues. Os integrantes, a maioria jovens, rivalizam não só pelo varejo das drogas, mas por questões de honra e auto-afirmação. Com a introdução do crack nas bocas de fumo, as rixas se tornam mais violentas e, assim, a ocorrência de assassinatos é maior.

Segundo o especialista, as políticas de prevenção e combate aos homicídios, implantadas desde 2003 pela secretaria, prioritariamente na Grande BH, ainda são recentes ou têm um alcance limitado nessas cidades. É o caso da integração entre as polícias Civil e Militar, que favorece as ações de repressão, e do Programa Fica Vivo, que promove oficinas educativas, culturais e profissionalizantes para os jovens em risco social. Em todos os grandes municípios do interior, as duas corporações já fazem reuniões trimestrais para traçar estratégias e metas de combate ao crime. Mas ainda não trabalham, juntas, num prédio único, como ocorre na capital.

Em Juiz de Fora, não há núcleo do Fica Vivo. Apesar do porte, Montes Claros, Uberlândia e Uberaba contam, cada uma, com um centro. “É bom lembrar que, na capital, as regiões que registram quedas nas taxas de assassinato coincidem com as que têm a política pública”, ressalta Beato, acrescentando que o fenômeno dos homicídios em municípios de maior porte está, normalmente, associado às gangues, o que impõe um acompanhamento maior desses grupos.

No fim do ano passado, o governo criou uma equipe para monitorá-los, a partir de informações dos setores de inteligência e de grupos especiais das polícias. O trabalho é feito em 20 áreas de Minas, mantidas em sigilo. O objetivo é identificar os integrantes e os líderes, prendendo-os. Depois disso, a vigilância continua, para verificar como os criminosos se comportam. O secretário de Defesa Social, Maurício Campos Júnior, afirma que o trabalho é recente e os frutos virão com o tempo. E que várias ações vêm sendo feitas nas cidades-pólo.

RESPOSTAEm todas, exceto Uberaba, as viaturas policiais foram terceirizadas. Em caso de pane, a empresa responsável é obrigada a repor a frota em 24 horas, o que aumenta a capacidade de resposta aos crimes. A construção de unidades para abrigar as cúpulas das polícias Militar e Civil – as regiões integradas de segurança pública (Risps) – está em fase de licitação. Em Montes Claros, um novo núcleo do Fica Vivo será inaugurado nos próximos dias.

O secretário explica que as soluções dependem da realidade de cada município. Em Juiz de Fora, por exemplo, o Fica Vivo não se aplicaria com eficácia. É que os homicídios não ocorrem em áreas específicas e, em geral, os atores não estão na faixa etária atingida pelo programa (15 a 24 anos). “Por isso, as ações estão mais ligadas ao policiamento ostensivo, como a terceirização da frota e a liberação de policiais civis, antes ocupados com a guarda de presos, para as investigações”, diz.

VALADARES
Entre as grandes cidades do interior, a exceção no aumento do índice de assassinatos é Governador Valadares. Entre 2005 e 2007, a taxa de homicídios caiu 20%, o que a secretaria atribui a um trabalho inédito das polícias Civil e Militar. Foi criado um grupo integrado de combate aos homicídios, no fim de 2006. A troca de informações permitiu a investigação mais ágil, testemunhas passaram a ser entrevistadas e os policiais começaram a atuar, à paisana, logo depois da ocorrência dos crimes, inclusive em velórios. Houve, ainda, mais atenção às tentativas de homicídio, com a prisão dos autores antes que a morte se consumasse numa segunda ofensiva. A idéia, agora, é levar o projeto para Montes Claros e Juiz de Fora.


 

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